Papo na Mesa

Quando todo mundo parece competente

13 de julho de 2026

“Eu adoro a ironia de como a inteligência artificial está, de certa forma, acabando com a credibilidade das redes sociais. A gente não sabe mais o que é real.”

Li essa frase da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, de quem fui aluno, e fiquei com a impressão de que ela descrevia um fenômeno maior do que a própria inteligência artificial.

Quanto mais fácil ficou produzir conteúdo, mais difícil ficou saber em quem confiar.

Durante anos, autoridade nas redes seguia uma lógica relativamente simples. Quem publicava com frequência aparecia mais. Quem aparecia mais construía reputação. Um conteúdo bem produzido era um sinal de competência.

A inteligência artificial levou essa lógica ao limite.

Hoje, qualquer pessoa consegue escrever artigos, criar imagens, editar vídeos e transformar uma ideia em dezenas de formatos em poucos minutos. Produzir conteúdo deixou de ser uma barreira.

A consequência foi uma mudança silenciosa na forma como construímos confiança.

A dúvida já não recai apenas sobre conteúdos claramente artificiais. Ela se espalha para qualquer publicação excessivamente polida, previsível ou parecida com centenas de outras.

Basta passar alguns minutos no LinkedIn.

Você encontra especialistas, cases impecáveis, histórias emocionantes e carrosséis muito bem produzidos. Depois de um tempo, a pergunta muda. Em vez de avaliar se aquela pessoa domina o assunto, você começa a se perguntar se foi ela mesma quem escreveu aquilo.

Essa mudança altera os sinais que usamos para confiar.

Durante muito tempo, parecer profissional significava dominar certos códigos de comunicação: a abertura certa, a estrutura certa, a estética certa. Esses códigos funcionavam porque poucas pessoas conseguiam reproduzi-los com qualidade.

Hoje, qualquer ferramenta faz isso em segundos.

O acabamento deixou de ser um diferencial. Em muitos casos, virou apenas o ponto de partida.

Reputação passou a depender de sinais muito mais difíceis de copiar

Um histórico consistente ao longo dos anos continua sendo um deles. Vale até para quem muda de opinião. Quando alguém explica por que passou a pensar diferente depois de uma experiência, de uma pesquisa ou de um projeto, esse percurso costuma inspirar mais confiança do que um feed impecável em que todas as certezas parecem existir desde o primeiro dia.

O mesmo vale para uma tese própria, mesmo quando ela desagrada parte das pessoas, e para clientes ou colegas que colocam o próprio nome para recomendar alguém.

Há ainda um tipo de conhecimento que costuma aparecer naturalmente na conversa. Quem já resolveu dezenas de problemas parecidos faz perguntas que um iniciante nem sabe formular. Esse repertório aparece nos detalhes, nas conexões entre ideias e na forma de analisar uma situação. É difícil reproduzir esse tipo de experiência apenas com uma boa ferramenta de escrita.

Todos esses sinais têm uma característica em comum: exigem tempo.

O que a inteligência artificial mudou de verdade para quem produz conteúdo

Essa talvez seja a principal consequência da IA para quem produz conteúdo.

Durante muito tempo, bastava produzir bem. Hoje, o conteúdo tecnicamente correto disputa atenção com milhares de publicações que seguem praticamente a mesma estrutura e o mesmo repertório.

Você pode publicar todos os dias e ainda assim desaparecer no meio do ruído.

A diferença passou a estar nas escolhas editoriais.

Quais ideias merecem ser defendidas?

Quais histórias ajudam as pessoas a entender como você pensa?

Que percepção cada publicação acumula ao longo do tempo?

Responder essas perguntas se tornou mais importante do que simplesmente manter um calendário de conteúdo.

Por isso, ainda me surpreende ver quantas empresas continuam vendendo exatamente a mesma promessa de alguns anos atrás: mais posts, mais frequência, mais formatos e mais distribuição.

Tudo isso continua tendo valor. Mas já não basta.

Conteúdo virou abundante. Discernimento continua escasso.

Quem consegue construir uma presença reconhecível em um ambiente saturado normalmente desenvolve uma forma própria de interpretar os problemas do mercado. Depois de um tempo, as pessoas passam a reconhecer seu raciocínio antes mesmo de reconhecer sua assinatura.

É por isso que acredito que a pergunta mais importante passou a ser quem consegue fortalecer uma reputação em um ambiente onde a confiança se tornou muito mais difícil de conquistar.

Essa diferença muda a forma de escolher parceiros, consultores e até profissionais para uma equipe.

Escrever bem continua importante.

Conhecer os algoritmos também.

Mas essas habilidades perderam espaço para uma competência mais valiosa: tomar boas decisões editoriais de forma consistente.

Cada publicação reforça ou enfraquece a percepção que as pessoas constroem sobre você. Ao longo do tempo, é essa sequência de decisões que forma uma reputação.

Escrever ficou mais barato.

Publicar ficou mais fácil.

Construir uma presença que continue inspirando confiança ainda exige aquilo que nenhuma ferramenta consegue acelerar: tempo, critério e uma perspectiva própria.

Quando todo mundo parece competente, reputação vira aquilo que sobrevive à desconfiança.

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