A temporada recente não deixou dúvidas: a polarização está colonizando o cotidiano. Nos Estados Unidos, o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, na semana passada, desencadeou um turbilhão retórico que atravessou funerais, palanques e redes, transformando dor em combustível político. Uma pesquisa da Reuters em parceria com o instituto Ipsos registrou, dias depois, que 63% dos norte-americanos acreditam que a retórica política dura incentiva a violência.
Em Nova Iorque, a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas abre sua semana de alto nível. Criada para pactos e convergências, a reunião anual já chega cercada por ruído, agendas cruzadas e disputas de narrativa que, novamente, ameaçam transformar um fórum de cooperação em palco de antagonismos.
No Brasil, a crispação também se adensa. O Supremo Tribunal Federal já analisou mais de 1.600 ações penais relativas aos atos de 8 de janeiro de 2023, com centenas de condenações. Na semana passada, o tribunal deu um passo ainda mais emblemático ao condenar o ex-presidente Jair oe outros envolvidos na chamada “trama golpista”, fixando penas severas e sinalizando a gravidade institucional atribuída a esse episódio.
Em paralelo, a chamada PEC da Blindagem, aprovada pela Câmara e em debate no Senado, reacendeu discussões acaloradas sobre limites institucionais. Ao mesmo tempo, atos de rua se espalharam pelo país contra a anistia aos condenados. “A população não quer impunidade, nem anistia”, declarou o presidente Lula ao comentar as manifestações.
A pergunta que interessa a líderes e organizações é direta: que tipo de comunicação ajuda a sair desse círculo vicioso e a reconectar pessoas em torno de objetivos comuns?
A lógica “nós contra eles” seduz porque simplifica. Reduz incertezas a dois polos, duas verdades, dois projetos em choque. Só que empresas não prosperam em preto e branco. O custo da polarização, quando importada para o trabalho, é previsível: erosão da confiança, medo de errar, decisões defensivas e inovação sufocada.
Quando essa mentalidade binária contamina as relações entre gerações, o dano se amplia. Vira rótulo no lugar de diagnóstico: jovens são arrojados e impacientes, veteranos são estáveis e resistentes. O problema não é a idade, mas a leitura polarizada da relação.
“Equipes lideradas por gestores significativamente mais velhos apresentaram queda de produtividade e menor satisfação entre os subordinados jovens. O problema não é a idade em si, mas a forma polarizada de interpretar a relação.”
— London School of Economics, 2024
A alternativa é adotar a lógica do espectro. Abandonar os extremos e recuperar as nuances. Nem todo jovem rejeita estabilidade. Nem todo veterano rejeita reinvenção. Experiência e inovação não são forças opostas, mas vetores que se reforçam quando há direção comum.
“Modelos de liderança compartilhada ampliam os benefícios do conflito cognitivo, que estimula novas ideias, e reduzem os danos do conflito afetivo, que mina relacionamentos.”
— Frontiers in Psychology, 2024
Se a polarização floresce em narrativas simplificadas, a comunicação estratégica é o instrumento para reabrir o espectro. Isso começa pelo enquadramento. A teoria do framing nos lembra que a forma de apresentar um problema molda as respostas possíveis. É diferente dizer que “jovens e veteranos disputam espaço” e dizer que “temos repertórios complementares que precisam de coordenação”. O primeiro frame convoca uma guerra de identidades. O segundo ativa cooperação.
O passo seguinte é a escuta ativa, não como ritual, mas como técnica deliberada de coleta de sentido. Em ambientes saturados de suspeita, ouvir bem é oferecer segurança psicológica.
“A percepção de justiça organizacional tem impacto direto no comprometimento afetivo dos colaboradores, fortalecendo vínculos de confiança e reduzindo tensões.”
— Estudos de Justiça Organizacional, 2024
A terceira alavanca é construir narrativas integradoras. Em vez de reforçar rótulos como “os jovens” e “os veteranos”, alinhar histórias de propósito compartilhado e critérios explícitos de decisão. É aí que uma metodologia de comunicação dá lastro operacional. O modelo IMPACTE é útil porque obriga a liderança a conectar intenção, público, contexto e transformação em um processo contínuo e mensurável. Intenção sem contexto vira voluntarismo. Público sem transformação vira plateia. Transformação sem estrutura vira espuma.
Os acontecimentos destas semanas deixam um espelho incômodo. A morte de Charlie Kirk virou estopim para discursos que reforçam trincheiras e identidades morais antagônicas, exatamente enquanto uma maioria de cidadãos diz temer a escalada de violência. Por ironia, a resposta institucional imediata nos EUA foi securitária, com pedidos de reforço de proteção para autoridades, o que não toca a raiz discursiva do problema.
No Brasil, a discussão sobre responsabilização pelos atos de 8 de janeiro e as propostas de anistia e de blindagem parlamentar se converteram, em horas, em identidades fechadas, palavras de ordem e trincheiras partidárias que pouco iluminam dilemas legítimos sobre devido processo, proporcionalidade e limites institucionais. Quando o ritmo acelera, a tentação do atalho binário aumenta.
Conclusão
Estamos vendo, no Brasil e no mundo, que a polarização cobra um preço alto, político, social e empresarial. O que antes parecia força, como ser radical, ser incancelável ou ser inflexível, revela-se hoje fraqueza. O futuro da liderança não está nos extremos, está nas sutilezas.
É justamente a comunicação estratégica que transforma essas sutilezas em vantagem competitiva. Se no ambiente político, sobretudo em lideranças orientadas apenas pelo poder, a divisão entre partes pode ser funcional, pois desloca o foco de soluções estruturais e mantém a sociedade fragmentada, no ambiente corporativo a lógica é oposta. O líder eficaz precisa unir, integrar e canalizar diferenças em direção a um propósito comum. Essa é a distinção crucial: enquanto a polarização pode servir de estratégia de manutenção de poder em sistemas políticos mal intencionados, nas organizações ela representa desperdício de energia e perda de valor coletivo.

