Papo na Mesa

Antes do Sim: O Conselheiro, os Valores e a Função Social da Empresa

16 de maio de 2025

Dizer “sim” a um convite para o conselho não é apenas aceitar uma posição – é assumir um pacto com o futuro.

A entrada em um conselho de administração pode parecer, à primeira vista, uma consagração. Um novo título, uma posição de influência, o reconhecimento de uma trajetória. E de fato, é tudo isso. Mas é também, sobretudo, um marco de responsabilidade.

Integrar um conselho não é apenas ocupar um espaço na governança. É dar nome, voz e consciência a decisões que terão impactos reais sobre pessoas, territórios e mercados. Por isso, antes de aceitar, o conselheiro precisa se fazer uma pergunta incômoda, porém essencial: o que está por trás deste convite?

Aceitar esse tipo de responsabilidade é mais do que um passo profissional – é uma declaração de intenção. Afinal, ao entrar em um conselho, você se compromete com o presente da organização e, principalmente, com o futuro que ela ajudará a construir. E isso exige muito mais do que competência: exige coerência.

A empresa não existe só para dar lucro. E o conselheiro também não.

Toda empresa ocupa um lugar no mundo. Não apenas no mercado, mas na sociedade. Ela gera empregos, influencia comportamentos, consome recursos e molda futuros. E essa presença tem peso jurídico e ético.

A Constituição Brasileira, no artigo 170, é clara ao afirmar que a ordem econômica deve estar fundada “na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa”, mas com vistas à justiça social e à função social da empresa. A Lei das S.A., no mesmo espírito, exige que administradores e acionistas atuem em prol do bem público, respeitando os direitos dos trabalhadores, da comunidade e do meio ambiente.

O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a companhia realizar o seu objeto e cumprir sua função social.

Quando o conselheiro ignora essa dimensão, ele reduz sua atuação a uma análise técnica descolada da realidade. Mas quando compreende essa responsabilidade social, sua presença no conselho ganha densidade. Ele não avalia apenas projetos e indicadores, mas examina como a empresa se posiciona no mundo e o que ela devolve à sociedade.

Empresas que abraçam sua função social tendem a ser mais resilientes, atrair talentos e conquistar a confiança de investidores e consumidores. O conselheiro que entende isso amplia sua capacidade de influência e agrega valor de forma consistente e perene.

Valores não se negociam. E conexão não se improvisa.

Nenhuma governança é neutra. Toda decisão carrega uma visão de mundo. E é por isso que o conselheiro precisa mais do que competências técnicas – ele precisa de conexão.

Antes de aceitar o convite, vale perguntar: essa empresa representa algo em que eu realmente acredito? Porque quando há desalinhamento de valores, o conselho se torna um espaço de aparências. Estratégias são votadas, mas não compartilhadas. Decisões são tomadas, mas não sustentadas.

Por outro lado, quando há coerência entre o propósito pessoal e o propósito institucional, nasce um outro tipo de atuação: mais presente, mais legítima, mais transformadora.

Conselheiro sem conexão vira técnico. Conselheiro com conexão vira referência.

Conexão é uma qualidade intangível, mas essencial. Não se encontra em documentos nem se mede em KPIs. Mas ela se revela no engajamento com os temas sensíveis, na firmeza diante de dilemas éticos, na escuta ativa em momentos de tensão. Sem essa conexão, a atuação no conselho tende a se tornar mecânica e superficial.

Em tempos de transformações aceleradas, com pressão por transparência, diversidade e compromissos ESG, essa conexão se torna ainda mais vital. Porque empresas que inspiram pessoas são empresas com alma. E conselheiros com alma ajudam a moldar culturas que duram.

A base técnica é o chão onde se pisa.

Sim, valores e propósito são fundamentais. Mas sem diligência técnica, eles se tornam vulneráveis. Por isso, o conselheiro precisa analisar cuidadosamente os documentos estruturantes da empresa.

Estatuto, contrato social, acordos de sócios, existência de comitês, matriz de riscos, políticas ESG, seguros D&O, canais de denúncia – tudo isso precisa ser conhecido, compreendido e validado. Não é exagero, é prevenção.

Todo e qualquer administrador deve agir sempre no melhor interesse da empresa, sem conflito de interesse e sem abuso de seu direito.

Essa avaliação não é um checklist apenas para proteger a imagem do conselheiro. É um compromisso com a transparência, com a governança e com a responsabilidade coletiva. Ignorar os sinais de alerta, por menor que sejam, pode levar a prejuízos irreparáveis – não apenas para a empresa, mas para todos os envolvidos.

A jurisprudência brasileira é clara: omissão, negligência e conivência são passíveis de responsabilização. Por isso, o conselheiro deve adotar uma postura ativa, questionadora e preventiva. A atuação consciente é o que diferencia quem ocupa uma função de quem exerce uma liderança.

Vincular-se a uma empresa é um ato de responsabilidade pública.

Ao aceitar o convite, o conselheiro não apenas participa das decisões – ele endossa publicamente os rumos da organização. Seu nome passa a estar diretamente vinculado à conduta, à reputação e aos impactos da empresa. E isso não pode ser ignorado.

Em um ecossistema em que stakeholders cobram coerência, a exposição é inevitável. O conselheiro deve estar preparado não apenas para contribuir, mas para responder. Por isso, é essencial que sua presença no conselho seja sustentada por propósito e preparação.

A boa governança exige mais do que estruturas: exige intenção, coerência e coragem. E o conselheiro é, por excelência, o agente dessa integridade.

Mais importante do que a cadeira que se ocupa é o impacto que se deixa.

Por isso, antes do sim, é preciso fazer silêncio, respirar fundo e perguntar: esse convite é coerente com quem eu sou? Se a resposta for sim – que seja com consciência, preparo e propósito. Porque ali começa não apenas uma nova função, mas uma nova chance de transformar o mundo pelos bastidores do poder.

O conselho é o palco onde se representa o futuro. E o conselheiro, quando bem posicionado, torna-se protagonista de um novo modelo de liderança: mais humana, mais consciente e, sobretudo, mais comprometida com o que realmente importa.

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