Papo na Mesa

Experiência profissional não é sinônimo de expertise: o que a ciência mostra

14 de setembro de 2026

Este texto é sobre experiência x expertise profissional: por que ter mais tempo de atuação nem sempre significa ser melhor no que faz.

“Experiência de 10 anos pode ser só 1 ano repetido 10 vezes.”

A frase é ótima.

Provocativa, fácil de lembrar e aparentemente verdadeira.

Mas ela merece ser submetida ao mesmo rigor que exige dos outros.

Experiência não é o mesmo que expertise. Expertise depende do que a pessoa aprendeu, corrigiu e revisou durante os anos de prática, não apenas do tempo acumulado. Uma revisão de 2025 na Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior reforça que tempo de atuação isolado não explica competência.

O que a repetição realmente constrói

Repetição faz parte da construção de expertise.

Um cirurgião pode realizar o mesmo procedimento centenas de vezes e se tornar extraordinariamente melhor. Um negociador reconhece padrões porque já esteve muitas vezes diante de situações semelhantes. Um executivo experiente entra em uma crise e percebe sinais que alguém menos experiente talvez nem consiga enxergar.

Parte da expertise nasce justamente daí: da repetição.

A questão é o que acontece com você enquanto repete.

É confortável dizer: “Tenho 20 anos de experiência.”

O número comunica alguma coisa. Persistência, exposição, vivência.

Mas deixa uma pergunta: o que aconteceu durante esses 20 anos?

Suas decisões se tornaram melhores? Alguma convicção precisou ser abandonada? Sua maneira de pensar mudou?

Ou você apenas ficou mais eficiente em reproduzir respostas que já conhecia?

O que a ciência diz sobre experiência x expertise profissional

Uma revisão sobre expertise nas organizações, publicada em 2025 na Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, chama atenção para a dificuldade de tratar anos de experiência como sinônimo de expertise.

Tempo de atuação importa. Conhecimento, capacidades desenvolvidas, qualidade das experiências e oportunidades de aprendizagem ajudam a explicar o que alguém efetivamente se tornou capaz de fazer.

Só que a crítica aos “anos de experiência” também precisa enfrentar uma objeção. É aí que mora o ponto central de qualquer discussão séria sobre experiência x expertise profissional.

Por que experiência ainda importa

Experiência continua importando. Muito.

Existe uma tendência contemporânea de valorizar tanto o novo que experiência às vezes parece quase um passivo.

Tenho dificuldade com essa ideia porque experiência constrói algo difícil de acelerar: reconhecimento de padrões.

Quem já atravessou ciclos econômicos diferentes, liderou pessoas distintas, tomou decisões ruins, perdeu bons profissionais e precisou corrigir escolhas desenvolve um repertório que dificilmente nasce apenas de cursos, livros ou informação.

Por isso, alguém com 20 anos de atuação pode possuir uma vantagem enorme sobre quem começou há dois.

Pode.

A vantagem depende do que essa pessoa percebeu, aprendeu, corrigiu e abandonou durante esse período. Nada disso aparece automaticamente: é o resultado de encarar experiência x expertise profissional como coisas distintas.

Duas pessoas podem atravessar os mesmos dez anos e sair deles profissionalmente muito diferentes.

Uma acumulou tempo. A outra transformou tempo em discernimento.

As perguntas que revelam se a experiência virou discernimento

Isso muda também a forma como comunicamos autoridade.

Quando alguém diz “faço isso há 25 anos”, quero saber o que esses 25 anos produziram.

Se você retirasse o número da apresentação, o que sobraria?

Que problemas consegue enxergar antes dos outros? O que deixou de fazer? Em que mudou de opinião? Qual erro alterou sua maneira de trabalhar?

Profissionais extremamente competentes muitas vezes possuem experiência, mas continuam comunicando principalmente antiguidade.

Como aplicar isso na hora de contratar

A mesma lógica vale para quem contrata.

Perguntar “há quantos anos vocês fazem isso?” continua sendo válido. Eu acrescentaria perguntas mais difíceis:

  • O que vocês faziam cinco anos atrás que hoje consideram inadequado?
  • Quando a experiência de vocês mais atrapalhou do que ajudou?
  • O que aprenderam nos últimos dois anos que mudou a forma como trabalham?

Essas perguntas mostram quanto a experiência modificou quem a acumulou. Esse é o teste prático pra separar experiência x expertise profissional na prática.

E isso se torna especialmente relevante agora.

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das competências atuais dos trabalhadores serão transformadas ou ficarão desatualizadas até 2030.

Esse dado acrescenta outra tensão à discussão.

Quanto mais experiência acumulamos, maior pode ser nossa vantagem. Ao mesmo tempo, aumenta nosso repertório de modelos mentais construídos em contextos anteriores.

A experiência pode ampliar a capacidade de julgamento ou sofisticar a nossa resistência à mudança.

O risco de parar de desconfiar da própria experiência

Talvez exista algo pior do que ter pouca experiência: ter muita experiência e parar de desconfiar dela.

Depois de muitos anos fazendo alguma coisa, certas respostas começam a parecer óbvias. Reconhecemos rapidamente o problema. Sabemos “como essas coisas funcionam”. Já vimos “esse filme antes”.

Frequentemente, isso é uma vantagem.

Até o contexto mudar.

Nesse momento, o reconhecimento rápido de padrões pode produzir uma interpretação rápida demais.

Maturidade profissional também exige saber quando colocar a própria experiência sob suspeita.

Por isso, volto à frase do começo:

“Dez anos de experiência podem ser apenas um ano repetido dez vezes.”

Podem.

E um ano repetido dez vezes também pode produzir um nível extraordinário de domínio.

A diferença aparece no que a repetição produziu em você.

Experiência exige percepção sobre a própria prática e disposição para revisar o repertório acumulado.

É saber mais e continuar capaz de desconfiar daquilo que sabe.

Então faça um exercício.

Retire os anos da sua apresentação por alguns minutos. No fim, é disso que trata a diferença entre experiência x expertise profissional.

O que sobra para demonstrar a sua experiência?

O que você consegue pensar, perceber e fazer hoje que os seus anos de experiência ajudam a explicar?

E, se você está contratando alguém, talvez valha inverter a pergunta:

Estou contratando os anos dessa pessoa ou aquilo que ela foi capaz de fazer com eles?

Perguntas frequentes

Experiência de 20 anos garante expertise?

Não necessariamente. Expertise depende do que a pessoa aprendeu, corrigiu e revisou ao longo do tempo, não apenas dos anos acumulados. Uma revisão de 2025 na Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior reforça essa distinção.

O que a ciência diz sobre experiência profissional?

Tempo de atuação importa, mas conhecimento, capacidades desenvolvidas, qualidade das experiências e oportunidades de aprendizagem são os fatores que efetivamente explicam a competência de alguém.

Como saber se minha experiência virou discernimento?

Pergunte-se: suas decisões melhoraram? Alguma convicção precisou ser abandonada? Sua forma de pensar mudou? Se a resposta for não, os anos podem ter virado repetição, não desenvolvimento.

O que perguntar na hora de contratar alguém experiente?

Além de “há quantos anos você faz isso”, pergunte o que a pessoa fazia há cinco anos e hoje considera inadequado, quando a experiência dela mais atrapalhou do que ajudou, e o que aprendeu recentemente que mudou sua forma de trabalhar.

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