A minha transição de carreira começou antes do lay-off pelo qual passei aos 45 anos. Eu já vinha percebendo que o mercado estava mudando e que a empresa em que eu atuava refletia esse movimento. O ritmo, as prioridades e o papel das lideranças estavam se transformando.
Entendi que aquele ciclo estava próximo do fim. E, como sempre acreditei que antecipar é melhor do que reagir, comecei a me preparar. Criei uma carreira simultânea como professor universitário, apoiada na minha formação acadêmica. Esse papel conviveu com a rotina executiva e me ajudava a ampliar perspectivas, testar ideias e explorar novas formas de gerar valor.
O que era percepção começou a se tornar realidade. Quando o lay-off chegou, ele apenas confirmou um movimento que eu já vinha observando.
Nos anos seguintes, vivi várias experiências que aconteceram de forma não linear, mas que se conectavam ou transitavam em torno de um mesmo eixo: o de buscar coerência entre o meu propósito e a minha prática profissional.
A partir daí, o trabalho deixou de seguir uma linha única e passou a se desdobrar em diferentes frentes. Atuei como consultor e desenvolvi uma prática de treinamentos com foco em liderança e desenvolvimento humano.
Em outra frente, empreendi abrindo um negócio de varejo, experiência distinta da consultoria e de toda a minha experiência corporativa. Nesse período, também atuei como coach, mentor e entregando treinamentos, ampliando o alcance do trabalho com pessoas e organizações.
Mantive presença constante no meio acadêmico, aprofundando o estudo da estratégia e do comportamento organizacional.
E, como costuma acontecer em ciclos de transição, uma nova oportunidade acabou surgindo. Nesse vai e vem, recebi um convite para ser CEO e voltei ao mercado nessa função. Foi uma experiência intensa, mas também esclarecedora. Percebi rapidamente que aquele formato já não correspondia ao que eu queria construir.
O interessante é que esse processo não significou uma ruptura com o que eu fazia. A consultoria e os trabalhos de mentoria continuaram, e um novo caminho foi se formando: comecei a me ver atuando como advisor, apoiando fundadores, sócios-proprietários e organizações em temas de estratégia, posicionamento e liderança.
O papel de advisor me permitiu integrar experiências anteriores — consultoria, mentoria, treinamentos, negócios e academia — em uma atuação coerente com meu momento e com o tipo de contribuição que eu queria gerar. Esse percurso foi, essencialmente, um processo de modelagem pessoal. Observei padrões, testei hipóteses, aprendi com o que funcionava e reestruturei o que não fazia sentido.
Olhando em retrospecto, percebo que cada uma dessas experiências formou um mosaico de aprendizado. Hoje vejo que as transições raramente acontecem de forma abrupta. Elas se formam em nuances, por camadas, até se tornarem visíveis. Às vezes, a mudança começa muito antes de ser nomeada.
É a partir dessa observação que decidi escrever este artigo — não para ensinar, mas para compartilhar uma visão. Uma leitura possível sobre como esse tipo de movimento pode se estruturar com mais propósito, método e estratégia. E, ao tentar organizar essas percepções, comecei a notar padrões que talvez ajudem a entender por que as transições se formam da maneira que se formam.
A maioria das pessoas encara a transição como um corte.
Mas, ao observar o que vivi e o que vejo em outros profissionais, percebo que ela é, na verdade, um processo contínuo — um movimento que vai se configurando com o tempo, por meio de decisões, experimentos e ajustes sucessivos.
Ao longo desse percurso, algumas dimensões começaram a se repetir com frequência. E, nesse processo, percebo três que costumam se combinar: clareza, formato e validação.
Clareza de direção: sem clareza, toda mudança é dispersa. Essa é a fase de entender propósito, valores e motivadores. Mais do que olhar para o que se quer deixar, é olhar para o que se quer construir.
Um formato para desenhar: depois de entender o porquê, é preciso organizar o como. O Business Model Canvas, originalmente criado para empresas, pode ser adaptado à carreira. É uma forma de organizar pensamento que ajuda a visualizar o modelo de valor entregue: quem é o público que desejo servir, que problema resolvo, que valor entrego e como essa entrega se sustenta.
Esse exercício transforma abstração em decisão e ajuda a definir se faz mais sentido atuar como consultor, mentor, especialista ou estruturar um negócio próprio.
Validação contínua: o terceiro elemento é testar. Aqui, a mentalidade Lean Startup oferece uma lógica útil: experimentar em pequena escala, medir resultados e ajustar com base no que funciona.
Projetos-piloto, mentorias experimentais ou novas ofertas são formas de aprender com dados reais e, como em qualquer processo vivo, às vezes é preciso pivotar, outras vezes persistir.
Esse ciclo de tentativa, erro e ajuste é o que mantém a transição em evolução. Essas três dimensões — clareza, formato e validação — formam uma maneira prática de observar e conduzir transições com mais consciência.
Quando reúno todas essas peças, o que emerge é uma percepção mais ampla sobre o sentido das transições.
Com o tempo, percebo que transição de carreira é, na verdade, um exercício de design — um processo de repensar como criamos, entregamos e sustentamos valor, não apenas para o mercado, mas para nós mesmos.
Processos de mentoria e reflexão estruturada, como o modelo GROW de coaching, ajudam a gerar clareza sobre o que se quer alcançar e o que é preciso ajustar para chegar lá. O Canvas oferece uma forma de estruturar essa visão. E o pensamento Lean estimula o teste e o ajuste constante.
O mais interessante é que essa combinação não exige fórmulas, apenas consciência. Não são receitas, mas pontos de apoio. Formam uma lógica prática que pode inspirar quem está passando por um momento de mudança e quer construir um caminho mais coerente.
Quando olhamos a carreira sob essa perspectiva, deixamos de buscar um ponto de chegada. Passamos a enxergar a trajetória como um processo em permanente evolução — algo que se modela e se ajusta a cada nova fase.
No fim das contas, tudo se resume à forma como escolhemos lidar com o movimento da própria carreira.
Toda transição carrega incerteza. Mas quando é conduzida com método e consciência, deixa de ser reação e se torna escolha.
Clareza, formato e validação são pilares que sustentam uma mudança consistente. São também o que diferencia quem apenas muda de função de quem realmente modela a própria trajetória.
Transição de carreira não é sobre começar do zero. É sobre continuar evoluindo, com propósito, estratégia e intenção.

