1. O reflexo automático: criticar antes de compreender
Nos últimos meses, tenho observado um padrão cada vez mais frequente no mundo corporativo: a crítica apressada a tudo aquilo que começa a ganhar visibilidade e adesão.
Recentemente, vi um post que questionava duramente o número crescente de cursos e certificações para conselheiros consultivos e administrativos. O argumento central era que “não se forma um conselheiro em 100 horas”, como se a certificação fosse, sozinha, responsável por moldar alguém para essa função crítica.
Mas, ao contrário do que parece, não estamos diante de um problema de formação rasa e sim de crítica rasa.
2. Coaching foi só o primeiro da fila
Essa reação não é nova. Aconteceu também com o coaching.
No momento em que o termo ganhou volume, visibilidade e mercado, passou a ser atacado por todos os lados. O que poucos fizeram foi separar o coaching sério, fundamentado, estruturado e com processos válidos de John Whitmore, do amadorismo ou da autopromoção disfarçada de técnica e espetáculo.
Criticar uma metodologia pelo mau uso que alguns fazem dela é um erro conceitual. E o mesmo vale agora para as formações de conselheiros.
3. A crítica ao tempo de formação esconde uma crítica à abertura do espaço
Ao observar essas críticas, percebo que existem duas camadas de desconforto.
A primeira é a ideia de que não se forma um conselheiro com “poucas horas”. A segunda, implícita, mas mais forte, é a ideia de que agora “todo mundo” quer ser conselheiro.
Essa segunda camada é a mais reveladora. Ela denuncia uma resistência ao acesso a espaços que antes pareciam reservados a poucos. Quando se percebe que mais pessoas estão sendo preparadas para ocupar funções estratégicas, surge o incômodo disfarçado de zelo pela qualidade.
4. Formação de conselheiro não é início de jornada, é marco de transição
É fundamental entender que uma certificação de conselheiro não é um curso de base. Ela é uma lapidação, uma transição de papel, um afinamento de lente estratégica.
As boas formações exigem:
– Experiência prévia e trajetória profissional consolidada
– Processo seletivo com entrevista e análise de currículo
– Estudo de casos, simulações práticas e dilemas reais de governança
– Contato direto com outros profissionais atuantes no ecossistema
Esse último ponto é frequentemente mal interpretado. A interação com outros profissionais não é apenas “networking”. É exposição, troca real de experiências, desafios e visões. É, inclusive, um dos pontos mais ricos de toda a formação.
5. A metáfora da habilitação: o certificado é só o começo
Ser conselheiro exige prática e vivência, mas isso não invalida a importância da certificação. Pelo contrário.
A formação funciona como a carteira de habilitação para quem vai dirigir pela primeira vez. Ela não torna ninguém piloto de Fórmula 1, mas garante que a pessoa está minimamente preparada para começar a exercer com segurança.
A excelência vem com tempo, prática e aprofundamento. Mas começar de forma estruturada, consciente e alinhada aos princípios da boa governança é fundamental.
6. Oportunidade estratégica: empresas jovens precisam de experiência, o mercado precisa de formação
Outro aspecto negligenciado por quem critica esse movimento é a necessidade crescente por conselheiros bem preparados.
Vivemos um cenário de:
– Crescimento de novas empresas
– Aumento da complexidade regulatória e estratégica
– Necessidade de decisões cada vez mais rápidas e impactantes
E falta experiência nas mesas de decisão. Por isso, um dos caminhos mais inteligentes é recrutar profissionais experientes, com bagagem de mercado, que conhecem os bastidores, os riscos, a política e o impacto das decisões, mas que muitas vezes não conhecem o funcionamento de um conselho.
Logo, formar essas pessoas é não só necessário, mas urgente. O curso não dá a experiência. A experiência já está lá. O curso ensina como colocá-la a serviço de uma nova função.
E aqui vale dizer: a questão não é criticar a certificação ou o diploma. Até porque, no fundo, ninguém contrata só porque alguém tem diploma. Diploma não abre portas. Ele deixa você entrar na fila dessa porta. Depois disso, vêm as entrevistas, a análise de histórico, o alinhamento de valores, as provas práticas, a escuta ativa e a entrega em contextos reais.
7. Conclusão: crítica sem proposta é só barulho disfarçado de opinião
Antes de criticar a “moda” dos conselhos ou a “superficialidade” das formações, vale uma pausa para estudar, observar e compreender os movimentos que estão acontecendo.
Não é o tempo do curso que define a profundidade de uma formação. É a qualidade da proposta, o perfil dos participantes, a densidade das trocas e o tipo de transformação que provoca.
E mais do que isso, uma coisa que aprendi no ambiente corporativo desde cedo é que crítica sem proposta é o que mais existe. Criticar é fácil. O difícil é propor melhorias. E para propor, é preciso antes entender com profundidade o que se está criticando.
Aliás, como dizia minha mãe, quem desdenha quer comprar. Às vezes, é preciso se perguntar: por que essa crítica agora? A quem ela serve? Qual a real intenção por trás desse questionamento?
Assim como as certificações devem ser analisadas com rigor, as críticas também devem ser. Não dá mais para aceitar opinião embalada como argumento.
O problema nunca é a certificação. O problema é a pressa em criticar sem conhecer.

