Papo na Mesa

Clareza agora é lei. Mas e se a urgência não for do governo — e sim sua?

18 de novembro de 2025

No último 17 de novembro de 2025, o Brasil sancionou a Política Nacional de Linguagem Simples, uma proposta que começou a tramitar em 2019. A nova lei obriga órgãos públicos a comunicar com clareza, usando frases curtas, diretas e acessíveis — para que o cidadão entenda sem precisar decifrar.

Essa regulamentação tem um significado maior do que parece. Ela escancara um problema que se arrasta há décadas: a comunicação institucional ficou tão técnica, densa e cifrada que passou a excluir. Mas o que mais chama atenção não é a lei em si. É quem chegou primeiro. Foi o setor público que deu o passo inicial. E isso inverte uma lógica que, até aqui, parecia natural: esperava-se que empresas e lideranças profissionais antecipassem esse movimento — não que o governo reagisse antes.

O Estado é lento, complexo, travado por sistemas burocráticos. Quando ele se move antes do mercado, é sinal de que o mercado — e as pessoas dentro dele — pararam de enxergar. Isso exige reflexão. E também ação. Porque, por mais que o setor público tenha saído na frente, o mundo corporativo ainda tem uma vantagem: velocidade. Líderes, conselheiros, executivos e profissionais em posição de decisão ainda podem reagir mais rápido. Se fizerem isso, continuam liderando. Se não fizerem, correm o risco de serem ultrapassados pela máquina que costumavam deixar para trás.

Antes de a clareza virar uma política pública, ela já era uma urgência silenciosa em ambientes profissionais. Durante anos, vi lideranças bem-intencionadas construírem mensagens complexas, relatórios longos, apresentações cheias de palavras… mas vazias de direção. A intenção existia, mas não chegava. E onde a intenção não chega, a ação não acontece.

A comunicação era feita para parecer inteligente — não para ser compreendida. O efeito era claro: times hesitavam, decisões atrasavam, alinhamentos se perdiam. Foi dessa inquietação que nasceu o modelo IMPACTE. Não como uma teoria fechada, mas como resposta prática a um problema recorrente: a comunicação que deveria mover pessoas estava apenas ocupando espaço.

Ambientes organizacionais seguem reproduzindo um padrão de comunicação que confunde sofisticação com utilidade. Slides com mais palavras que ideias. E-mails que informam, mas não direcionam. Relatórios técnicos que dizem tudo — menos o que precisa ser feito.

A neurocomunicação explica isso com clareza. O cérebro humano rejeita o que exige esforço excessivo para ser processado. Se a mensagem não explicita logo sua intenção, o receptor hesita. E quem hesita, não age. Essa hesitação pode estar acontecendo ao seu redor — ou mesmo nas mensagens que você compartilha hoje.

Vejo esse padrão se repetir entre conselheiros, em reuniões de liderança, comitês executivos. Não é despreparo. É ruído estrutural. Um excesso de forma que abafava o conteúdo. Mais do que um problema estético, isso é um problema de performance. Cada mensagem mal construída custa. Custa tempo. Custa alinhamento. Custa resultado.

O que me chamou atenção, ao longo de anos acompanhando esse tipo de cenário, foi que o problema raramente era técnico. O conteúdo estava ali. O domínio também. O que faltava era intenção comunicacional. E o que sobrava, quase sempre, era ego.

Ego na linguagem que busca reconhecimento, não clareza. Ego que prefere proteger status a gerar conexão. Ego que traduz autoridade em complexidade — como se fosse preciso dificultar para ser levado a sério. Só que quanto mais difícil é a linguagem, maior a distância entre quem fala e quem ouve. E liderança, sem vínculo, é só ruído com crachá.

Quando um CEO fala difícil, o time finge que entendeu. Quando um conselheiro escreve de forma rebuscada, a discussão perde profundidade. Quando um fundador mascara sua insegurança com jargões, a execução desanda. E talvez, se você observar com honestidade, perceba que em algum momento também fez isso — não por má intenção, mas por hábito aprendido.

Falar simples não reduz autoridade. Reduz a distância. E distância, para quem lidera, é risco.

Com o tempo, comecei a identificar três elementos que se repetiam nos líderes que realmente geravam impacto por meio da comunicação. O primeiro era clareza de intenção. Toda mensagem estratégica começa com uma pergunta: o que quero que o outro compreenda — e faça? Isso vale para uma fala em reunião, uma troca por e-mail ou um relatório para o conselho. Sem intenção, a estrutura se perde.

O segundo era a escolha consciente pela simplicidade. Simplicidade não é empobrecimento. É decisão. É remover o que não contribui. É entregar uma mensagem que o outro capta sem esforço, porque está limpa, direta, sem distrações. Isso exige autoconfiança e maturidade profissional.

O terceiro era o alinhamento cultural. Profissionais e organizações que se comunicam com clareza, por dentro e por fora, criam coerência. Branding só se sustenta se a cultura interna for clara. E cultura se transmite, em grande parte, pela forma como as lideranças se comunicam.

Esses três pontos — intenção, simplicidade e coerência — não são apenas conceitos. São fundamentos do modelo IMPACTE. E hoje, mais do que nunca, são diferenciais competitivos e humanos.

A nova lei escancarou o que o mercado ainda hesita em admitir: comunicar mal é negligência. Se o setor público precisou ser forçado a simplificar, talvez o setor privado — e especialmente suas lideranças — precise de outro tipo de força: a da consciência.

Mas há outro aspecto. O governo só se moveu porque reconheceu que havia ganhos reais na clareza: mais compreensão, menos judicialização, mais eficiência. Qual é o benefício que ainda falta ser enxergado pelas lideranças e profissionais para que esse movimento ganhe força no setor privado?

Em um mundo que funciona em alta velocidade, com excesso de estímulos e pouca atenção, comunicar com precisão não é detalhe. É vantagem. Comunicação bem construída reduz ruído, acelera decisões, aumenta coerência e fortalece vínculo. E nesse cenário, inteligência comunicacional é diferencial competitivo.

Clareza agora é lei. Mas, para quem lidera, ela sempre foi responsabilidade. Liderança não é sobre impressionar. É sobre influenciar. E influência se constrói com intenção, simplicidade e presença.

No fim, a pergunta que realmente importa não é sobre a nova lei.

É sobre a sua prática.

Sua comunicação está servindo ao seu propósito — ou afastando as pessoas da transformação que você quer provocar?

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